sexta-feira, 21 de março de 2008

seguro na queda

medo
é a cadência sanguinária
do gotejo arterial
na bainha metálica do tendão
rasgado

a malha óssea
que germina
na dor do teu corpo
na latência do pedal
que crava a tua carne
ainda fria

medo
é o silêncio cicatrizado
a nu

um encaixe
imperfeito

e todavia
subsiste
mudo
- seguro na queda

quinta-feira, 20 de março de 2008

talvez

apenas sei que é
pelo repouso que espero
pelo envelhecer da tua sombra
na minha
ainda incompleta

pelos dedos prolongados
no sonho
espreguiçados nos meus
talvez entrelaçados
numa manhã sem hora

quarta-feira, 19 de março de 2008

sigo-te

reconheces as minhas mãos
no reflexo, no tacto,
e no entanto é pela margem
que trilhas o caminho

quando é na água que te sigo
no mergulho atormentado dos pássaros
no grito vulcânico das pedras
nas línguas espalmadas dos sapos
no assobio desvairado das canas
no verde esquivo dos pés subaquáticos

pela água sigo a margem

sigo-te à margem
até ao mar

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

magnum

é no horizonte que procuro
a febre sintonizada
nos graus alinhados da assepsia

da antecâmara do Éden
anuncio a insanidade
da pólvora
o pó que à míngua hostilizou
os estilhaços dissecados
na cicatriz da culatra

é no horizonte que a precisão
da mira se submete
à detonação das sinapses
no ardor do gatilho

em uníssono, as feridas
vocalizam o timbre da explosão
- a fragrância, o fumo, a luxúria
o projéctil disparado
na hesitação do arco órfão
do meu peito

domingo, 20 de janeiro de 2008

o jogo do medo

hoje sigo
a fragilidade hirta
das raízes
o verde hipnótico
a tensão imóvel do silêncio

o regresso foi adiado
num passo atáxico,
sincopado

espera elíptica
em cada lâmina
de água turva
- quase lama
de onde tento erguer-me
sem lágrimas

aceito o desafio
das incertezas
- véu cíclico de sombras

e o medo para quando?

mute

foi-me negado
o improviso dos sons
a vibração dos sentidos
num arco de pele
desafinada

não toco

escuto apenas
o ruído tenso das mãos
que se afastam
- uma música suspensa
num compasso de língua
húmida

sábado, 19 de janeiro de 2008

à la carte

resta-me apenas
um prato incógnito e raso

no futuro
servirei as lágrimas
demolhadas de véspera
-sem sal, sem agonia

mal passado,
o mistério
- em sangue
do dia