terça-feira, 13 de novembro de 2007

com chuva...

ansiaste pela lava incandescente
a aquecer-te o peito?
a porta para a lucidez das águas?
as possibilidades sem renuncia?
o desejo que não cessa?
a inocência por estrear?

trouxeram-te a culpa
na cinza húmida
de um ritual extinto


imobilizaram-te na certeza
de seres apenas mais um
a poluir este magma espesso
sulcado de memórias
não recicláveis
que carregas
ao ombro erosionado do remorso
de olhos continuamente abertos
pelo esgotamento
do desencontro cíclico
das pálpebras

o que pretendes alcançar
na exploração irracional
da ausência?

talvez um dia possas
permanecer longe das tuas
eternas dúvidas…

talvez um dia possas
chegar
e partir
com chuva, música e tudo…

sábado, 11 de agosto de 2007

tatuagem

aguardo
a imprevisivel liquefacção
dos corpos entardecidos

a desintegração das mãos abauladas
no crepúsculo

anseio a hora em que desponta
o apelo tangencial dos lábios
para sofregamente tatuar
o plasma primordial
mais inacessível da tua pele

ficaram por dizer

nos meus sonhos
ficaram por dizer
as últimas palavras da incerteza,
o chá, o ocre, o sabre,
o porvir da nossa infância...

neste caminho circular
escolhi o canto mais oblíquo
- junto ao mar...

não é aqui

não é aqui que moro
nem nas secretas escarpas
onde vomitam os corvos

escolhi a fragilidade nocturna das estrelas
o anis húmido do teu sangue
o limbo vertiginoso das asas

para onde partiremos esta noite...

renuncio

despenteio papoilas presumidas
vermelho escorrido em saltos altos
renuncio à lucidez das pétalas
à acidez essencial
do pólen
veneno subcutâneo insinuando
a pele entreaberta
nos poros de malentendidos

renuncio à verdade

renuncio à verdade da cal
no frio dos tornozelos

segunda-feira, 30 de julho de 2007

estou de ouvidos

a tristeza
a solidão
a frustração
vão à psicoterapia
engolem pastilhas
que desligam dessintonias
recanalizam as más energias
purgam o pensamento

partilham-se mágoas
contra-cronómetro
queimando as horas
compradas avulso
aos ouvidos descartáveis
de uma disponibilidade
de aluguer

é urgente
que se ressuscite
o vulgar desabafo

... de preferência à borla!

- peço desculpa, estou a tomar-lhe o seu tempo?

o fixo

que é feito do fixo
imóvel
ligado à corrente
toque único
não vibrátil
não estéreo
partilhado por todos
num espaço comum?

quem é que diz:
-é engano...
-ele não está...
-quem atende?
-não é para mim!
-se for para mim, não estou.

hoje é tempo
de cada um ter um número
pessoal-intransmissível
intransponível
de dar toques
de rejeitar os desavindos
de seleccionar
de individualizar
a gosto
a tacto...

-silenciados a bem da Nação!

já é tempo de voltar
a ouvir vozes
neste telefone
fixo
imóvel
partilhável
por Todos nós!